29.11.09

a visão, quer dum lado quer do outro, é espantosa. no meio de uma divisão da casa da família Cunha e Silva, Antero, um convicto ateu, fita, incrédulo, a impossível figura. um Anjo. ou um Arcanjo, um soldado de um Deus em que nunca acreditou, ali. sabe que não dorme. está seguro. Mariana benze-se sem se aperceber. por seu lado o Anjo vê, na ombreira de uma porta normal, entre duas divisões, cinco pessoas acumuladas. cinco indistintos corpos de tão chegados, apertados também. mas principalmente, de forma inconsciente, chegados uns contra os outros forma atávica de qualquer animal buscar segurança, confiança. um molho único onde os rostos semelham um ramalhete de "flores-face" e os corpos- pés das flores - se confundem. quatro bocas abertas em “o”. descaídos os queixos face à inquietante e surpreendente visão. Zeca é o único que mantém a anatomia facial em relativo sossego ou normalidade. só os olhos indicam a surpresa. isto o que o Anjo vê. percebe que deve manter as asas imóveis ou quase pois perturbam o pouco espaço e assustam mais os rostos que o fitam mas, ele, Anjo, ao fitá-los ri. ri em sãs gargalhadas que não sustem e mais surpreende os humanos, mas depois os contagiam. da surpresa passam ao riso, sem desfazer o molho pois o temor ainda os tolhe. é sabido que o riso, sendo uma forma de comunicação humana, a todos aproxima e tem um efeito relaxante. aos poucos os corpos ganham a forma de cada um e a ombreira é ultrapassada entre surpresa e incontido riso.

sinto-me:
ilustrado por Conceição às 12:50

Josefa chega e reúne-se com os restantes convivas na cozinha. estão em amena cavaqueira, sentindo o cheiro do manjar quando, de repente, uma rajada de vento invade o apartamento e uma luz intensa emana da sala de jantar. pensando que alguma janela se abriu sozinha, Maria Rita deixa os companheiros e dirige-se à sala. as rajadas de vento repentinas sucedem-se e da jovem nem sinais. só uns bons minutos mais tarde, esta regressa lívida para junto dos pais. assustados, perguntam-lhe o que aconteceu e Maria Rita apenas murmura: está um Anjo no meio da sala. incrédulos, os dois homens vão averiguar e regressam confirmando as palavras da rapariga. Mariana avança destemida. volta e meia há uma nova rajada de vento, quando o Anjo bate as asas. Josefa segue-a curiosa. estão agora os cinco boquiabertos à entrada da sala, no centro um radioso Anjo sorri-lhes e diz: trago-vos uma mensagem importante.

ilustrado por Ana às 10:58

27.11.09

Maria Rita corre a abrir a porta. é mesmo Zeca. vem radiante. numa das mãos um saco onde transporta uma caixa  de bombons Ferrero Rocher variados e uma garrafa de champanhe. na outra dois ramos de rosas. amarelas umas e rubras, de sangue as outras. beija Maria Rita na boca e oferece-lhe as rosas vermelhas. entra, cumprimenta o pai da namorada e entrega-lhe a garrafa de champanhe dizendo, para festejarmos. Antero dirige-se à cozinha para colocar o champanhe no frigorífico e Zeca segue-o -  posso entrar? pergunta adentrando a cozinha. Mariana sorri e desculpa-se estou a ver o nosso pargo assado, não o queremos queimado. pois não, retruque Zeca enquanto lhe entrega as rosas amarelas e a caixa de Bombons para a sobremesa, acrescenta. Josefa decidira fazer uma tarte de laranja receita de sua mãe e estava a colocá-la numa linda tarteira, herança de família. decorou à volta com gomos de laranja e artísticas flores feitas com casca da laranja. observou o aspecto final e ficou satisfeita - que pena que Joaquim não tenha sido convidado, mas claro, só o conhecerem em casa de Amélia...não fazia qualquer sentido. eu é que posso retribuir com um jantar à família Cunha e Silva e convidá-lo bem como a Zeca. aprontou-se para sair...

sinto-me:
ilustrado por Conceição às 12:08

Maria Rita chega a casa com um sorriso nos lábios. os pais também sorriem, concentrados em arrumar a sala para as visitas e preparar o jantar. Maria Rita decide tomar um duche para tirar o cheiro do hospital e vem ajudar os pais na cozinha. então, agora já podem desvendar o mistério? pergunta-lhes. qual mistério? avança o pai. a surpresa que vocês anunciaram de manhã, recorda a filha. à sobremesa, promete a mãe com um sorriso radiante. e por mais que Maria Rita tente obter algum dado nenhum dos progenitores adianta mais nada. Mariana apenas diz à filha que a D.Josefa também vem: sendo um jantar informal e estando ela sozinha pensámos que era simpático da nossa parte recebê-la. Maria Rita está encantada com as mudanças no carácter da mãe e dá-lhe um beijo como resposta. os ponteiros do relógio aproximam-se das 19h30 e eis que tocam à campaínha...

ilustrado por Ana às 10:32

26.11.09

Zeca e Lúcia não acordaram ver-se nem falaram em manter a amizade. sabiam ambos que ela existia e no devido tempo reencontrar-se-iam com a serenidade do carinho mútuo. Maria Rita teve um dia de trabalho de algum sossego para o que é usual no dia-a-dia de um hospital. de tal forma que o pensamento pode alhear-se de algumas tarefas que executava e deu por si a pensar com humor nos nomes das estações de metro da linha azul-turquesa  por onde passava no caminho casa-hospital-casa. os meus pais hoje devem estar na primeira estação:” Amor". e o pensamento continuou a divagar: entra-se na estação do “Amor”, n’ “Aquela Tarde”,  vamos andar na “Montanha-Russa” e quando saímos compro um “Algodão Doce”. dou e recebo o “Primeiro Beijo” e neste doce enleio de almas chego a “Casa”. que belos nomes. encantatórios. apetecia-lhe dançar tão leve se sentia.

sinto-me: palhaça
ilustrado por Conceição às 15:58

Maria Rita regressa ao hospital com a pulga atrás da orelha. o que terão os pais para a surpreenderem ao serão. estão tão carinhosos um com o outro. estranha-os. apesar de lhe agradar esta mudança no relacionamento. o seu coração está mais sossegado, agora que o do pai e da mãe parece que recomeçou a bater. Zeca despede-se de Lúcia com um: até sempre! o coração um pouco inquieto com a tristeza da amiga. sabe que é a última pessoa no mundo que lhe deve dar consolo, para que ela possa seguir em frente aberta a novos relacionamentos. tem de haver um processo de luto entre ambos. há um carinho genuíno que prevalece. Lúcia regressa serena às suas aulas. a amizade que sente por Zeca permite-lhe aceitar esta ruptura apenas como uma mudança. não sente que o perdeu para sempre. perdeu apenas um sonho. está naturalmente triste e, no entanto, em paz consigo. terá tempo para chorar quando regressar a casa sozinha.

ilustrado por Ana às 10:54

25.11.09

Josefa fica feliz e grata. já sozinha em casa, apercebe-se das mudanças em Mariana e em si também. mulheres mais felizes, mais equilibradas, serenas. e foi necessário tão pouco afinal. só necessitei de me mexer, de me afirmar enquanto pessoa e admitir para mim mesma sem medo dos juízos de terceiros o que queria e o que não queria e agir em conformidade. mas o que terá acontecido com Mariana? nem uma vez emitiu um juízo daquela forma tão caustica que lhe era usual que nos fazia encolher de imediato. ai, Josefa, Josefa, não voltes ao mesmo. estão felizes e tu também. que te importa a vida de cada um? Isso é passado, deixa-te de coisas, mulher. ir jantar com a família e com o senhor arquitecto, como sempre o trata quando se cruzam fá-la pensar no que deverá levar para o jantar. quer vestido, quer nalguma vitualha como agradecimento pela inclusão. no 4ºE Amélia sente-se inquieta. o seu Léu-léu continua estranho. até indiferente. Não se comporta como usual e continua com um ar adoentado. insiste em que vão ao médico, que o acompanha... indiferente à sua preocupação recusa e diz-lhe não estar certo de se poderem encontrar nesse fim de dia. sem mais. sem qualquer explicação como tem sido norma na sua relação. Amélia sente-se triste, para além de preocupada, mas decide dar-lhe o espaço de que ele parece necessitar. no rés-do-chão há grande movimentação mas nada que satisfaça a curiosidade dos moradores ao saírem e entrarem no prédio pois ocorre tudo sob sigilo e tudo o que entra vem muito bem embrulhado. alguns moradores cruzam-se várias vezes com Ricardo a entrar e sair desse piso. tentam, em conversa de ocasião, sobre o convite deixado nas caixas do correio, apurar mais informações mas Ricardo, educadamente, esquiva-se e nada mais acrescenta ao que o convite diz.

sinto-me: quando souber digo
ilustrado por Conceição às 08:49

24.11.09

Antero e Mariana estão ambos na cozinha, a preparar o jantar para receberem Zeca. estão cúmplices na concepção do menú. estão felizes. ao início da tarde estiveram numa agência de viagens a preparar o que vai surpreender Maria Rita ao serão. a casa está serena. Josefa veio lanchar com os vizinhos. os três saltitantes. redescobrindo a alegria. Josefa esteve encantada a descrever pormenorizadamente a sua experiência durante a massagem. e acabou sendo convidada para o serão em família.


texto a partir da imagem...
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