09.11.09

o sono fugiu-lhe como se o golpe de gigantesca asa o houvesse varrido. em silêncio sentou-se na cama avassalado por pensamentos há muito ausentes. fora sua irmã, Maria Rita, madrinha da filha e amiga de Mariana quem os apresentara há trinta e cinco anos atrás, dois anos após o fim de namoro, antigo e único, informando-o estar a amiga a passar por período muito difícil em consequência do rompimento desse namoro desde os bancos do liceu, já mais noivado, embora não oficializado à moda antiga, disse,  de forma unilateral pelo namorado de Mariana que afirmou não querer viver o resto da vida com uma pessoa que emitia juízos sobre tudo e todos, só de leve os conhecendo, como se fosse perfeita. assim a deixou, ao fim  de onze anos de namoro mais dois de ameaços, estupefacta, numa esquina perto de casa desta. sabedor da forma cruel e deselegante deste rompimento, sem tacto, sensibilidade nem educação, deixando a pobre rapariga exposta na rua, logo o coração de Antero se condoeu e predispôs a ver Mariana com bons olhos. saíram os quatro. a irmã com o namorado Jorge Lima de Sá, que viria  a ser seu cunhado, Mariana e ele a acompanhá-la, única forma de esta sair de casa sem ficar a “segurar vela”. a irmã e o cunhado morreram cedo num acidente de viação. mas, felizmente para ambos, não tão cedo que não tivessem casado e sido muito felizes até que a morte os colheu, tendo apadrinhado o casamento de Mariana com ele bem como a filha de ambos na pia baptismal. casaram dois anos depois de se conhecerem, ambos com trinta anos. a filha nasceu quatro anos depois.

Mariana foi sempre honesta com ele. disse-lhe não o amar da mesma forma, mas que gostava muito dele e lhe seria sempre fiel e respeitadora dos laços que os uniam. e assim foi sempre. na época pouco ligava aos julgamentos constantes que a mulher fazia sobre terceiros, mas depois da reforma tornou-se muito mais difícil pois passava mais tempo com ela. lembra-se que notou um acréscimo deste aspecto negativo do carácter de Mariana depois da morte da irmã. eram muito amigas e, não sabia como mas Maria Rita, sua irmã, tinha sobre a amiga um ascendente benigno que minimizava esta desagradável característica. claro que sempre esperou ser amado como amava. com o correr dos anos percebeu que nunca o seria e uma revolta surda contra o homem que não conhecia e que deixara a mulher assim cresceu nele. Mariana adormecera. deitou-se e tentou conciliar o sono. pois iriam! iriam e mostrar-lhe-iam como eram felizes e enamorados apesar de casados há trinta e quatro anos. era isso que tinham de fazer. por Mariana e por ele, seu marido!

sinto-me:
ilustrado por Conceição às 14:32

texto a partir da imagem...
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