23.01.10

 

era a hora da transição. aquela hora do dia que a palavra inglesa tão bem identifica ou sugere. “twilight”! nem noite nem dia. um outro momento. uma outra realidade entrevista. sentia-me cansado. esgotado mesmo. há anos que a vida me colocara no olho do furacão e eu usava toda a minha energia para sobreviver fisicamente e para viver na totalidade – com uma confiança que só podia ser cega continuava a acreditar que, um dia, a vida daria uma virada e eu estaria lá, bem atento para sair, libertar-me daquele rodopio destruidor onde me vira colocado. levantei-me do sofá da sala, atravessei a casa já na penumbra, e fui até à varanda do quarto, virada para a rua que corre de nascente para poente |ou ao contrário. como mais vos aprouver| de onde tinha uma excelente vista do céu. a coloração azul profundo, vibrante, onde as estrelas se anunciavam, fascinava exercendo sobre mim poderoso efeito calmante. não cheguei a escancarar as portadas da varanda. quedei-me do lado de dentro. hipnotizado não pelo céu |como de costume| mas pelos corpos enlaçados. pelo abraço entrevisto, numa divisão do 2ºandar do prédio defronte. primeiro vi os corpos |sem cabeça| moverem-se um para o outro, como que deslizando. arrastando consigo o tempo, a dor, a tristeza, as alegrias...arrastando consigo tudo de melhor que o ser humano tem e tudo de pior com que convive ou em si existe. senti-me mal. mais do que uma percepção uma sensação de voyeurismo atingiu-me qual potente murro mas o fascínio e a hipnose eram superiores. releguei o mal-estar |em que a situação de inesperado, indesejado observador me colocava| para longe de mim e deixei-me preencher por aquele abraço de duas pessoas sem idade, sem sexo, sem rosto das quais tudo desconhecia inclusive os laços que as uniam. um abraço tão real, tão sentido, tão pleno que nele cabia toda a vida e nele esta se renovava e recriava. um abraço terno mas potente. simultaneamente suave e forte. a ternura escorria pelos corpos e atingia-me envolvendo-me naquele renovador abraço que me não era dirigido. a noite caiu depressa como é norma no período de twilight (entre luz?). entre vidas me encontrava eu. estranho intruso que cabia no espaço daquele abraço e sentia aqueles braços a apertarem-me. a susterem-me. solidários. quentes. com uma força e uma tenacidade toda feita de amor. na casa em frente a luz da divisão iluminava os corpos permitindo-me esta doce, terna e rica partilha. nessa noite senti-me leve e liberto do turbilhão feroz que me trucidava. dormi embalado pelo remanso manso das maternas águas.

sinto-me:
ilustrado por Ana às 15:45
escrito por Conceição em 25/01/2010 às 17:46

O nome do vosso blog é interessante... pena que o meu seja mais antigo.
Abraços
Mushu a 3 de Fevereiro de 2010 às 16:48

texto a partir da imagem...
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