24.11.09

Clotilde resolve dar uma volta ao guarda-vestidos e apurar o que se poderá salvar para o seu regresso à vida social. mais do que um regresso, pensa: um reinício. sim, reinício! viveu, ao de leve e com as severas regras de comportamento da época, a breve liberdade da adolescência até aos dezanove anos. daí em diante entrou num regime de semi-clausura a cuidar do pai que adoecera e ficara acamado, enquanto a mãe ia trabalhar. a sua constante indisponibilidade para os convívios com as amigas fez que estas deixassem de a convidar e ela não sentiu ânimo para inverter o processo. a mãe sofreu um AVC e ela ficou com dois dependentes a cargo. os hábitos de convívio eram os de uma mulher de meia idade. de uma geração anterior. não viveu a juventude, nem a idade adulta. cuidava dos doentes, recebia as reformas dos pais e o subsídio de terceira pessoa por deles cuidar e fazia arranjos em roupas, o que lhe dava uns trocados. como tinha boa mão para o tricô fazia, por encomenda, as peças solicitadas engrossando assim o rendimento o que permitia pôr de lado, a render, tudo o que podia pois sabia que na sua velhice não teria reforma de trabalho. sossegava-a o facto de o andar ter sido um dos poucos adquiridos pelos inquilinos e estar em seu nome. tecto tinha. melhor dizendo, tinha de seu, um andar. um bom andar numa bela zona de Lisboa agora em franca expansão. noutro piso Josefa não cabe em si de contente. sem se aperceber anda aos pulinhos pela casa. depois de almoço o telefone tocara e, surpresa das surpresas, era Joaquim - viva Josefa, sou eu, Joaquim. boa tarde. desculpa estar a ligar mas quero dizer-te que gostei muito de te conhecer. foi um serão muito agradável e a maior parcela dessa agradabilidade a ti se deve. na sexta-feira à noite vou com o Eleutério e passo a buscar-te...pode ser?


texto a partir da imagem...
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