
a casa acorda devagarinho com o riso das crianças a brincar na praia. o som das ondas a desenrolar na areia. o grito das gaivotas na mansidão do céu. o cheiro a maresia anuncia a manhã. a luz espreguiça-se pelos quartos.

as minha pernas já não são como antigamente. os três quilómetros e meio, da herdade até aqui, deixam-me extenuado. cheguei há pouco mais de um minuto. encostada à parede da casa que foi mandada construir pelo meu bisavó Jaime Meireles está a minha velha bicicleta. a parede também está velha. os outrora belos azulejos mostram o desgaste do tempo e do clima. trouxe alguns legumes frescos e fruta da horta cuidadosamente escolhida pelo velho hortelão Jerónimo. ele é três anos e pouco mais novo do que eu. brincámos e crescemos juntos. o pai dele e o pai do pai dele foram os hortelões anteriores. não quero que ele trabalhe mas ri-se - e o que faria então com a vida? sentava-me à espera da morte? Ná...e tu José |desde há uns anos retornou ao tratamento que sempre tivemos até ao dia em que formado me casei e passei a ser o Doutor José Meireles| não andas por aí a pedalar e bem mais velho do que eu? em verdade tenho oitenta e quatro anos e, não tarda, Jerónimo festeja os oitenta e um. os azulejos do frontispício apresentam um ar delido. sentado à mesa da esplanada defronte da casa observo-os enquanto beberrico uma limonada fresca acabada de fazer. rio-me e ninguém se espanta. estão habituados. a mulher morreu. filhos não os tivemos e não seriam garantia de nada. de companhia ou presença, quero eu dizer. sou só eu no velho casarão, a não menos velha Deolinda, antiga governanta que ainda agora cuida de mim e orienta a mulher a dias, antiga trabalhadora rural, que faz os serviços da casa e a mantém em ordem sob as suas ordens rigorosas. concluo que estamos todos velhos e não tarda chegará a hora de partir deixando que o novo venha ocupar o espaço ora ocupado por todos nós. rio numa gargalhada onde a ironia está presente. ergo o copo num brinde murmurado à vida desejando que sejam melhores e melhor o mundo novo que já não verei que este cansa muito de tão mesquinho que está.
Madalena escuta o vento. o corpo esquálido balança ao sabor da brisa. o ar uiva por entre os cabelos. nuvens de areia recriam dunas. o mundo perdeu a cor. no abraço de uma tristeza antiga. Madalena testemunha o diálogo entre o vento e a areia. sussurrado aos ouvidos. o horizonte amplo convida à calmaria. cheira a mar. Madalena fecha os olhos e é inundada pelo azul. a luz aquece-lhe o corpo. de olhos fechados a alegria sorri-lhe. algures uma centelha renasce no coração. a esperança prevalece no horizonte da alma. no silêncio da paz interior Madalena escuta o vento cantar-lhe palavras de amor.
era a hora da transição. aquela hora do dia que a palavra inglesa tão bem identifica ou sugere. “twilight”! nem noite nem dia. um outro momento. uma outra realidade entrevista. sentia-me cansado. esgotado mesmo. há anos que a vida me colocara no olho do furacão e eu usava toda a minha energia para sobreviver fisicamente e para viver na totalidade – com uma confiança que só podia ser cega continuava a acreditar que, um dia, a vida daria uma virada e eu estaria lá, bem atento para sair, libertar-me daquele rodopio destruidor onde me vira colocado. levantei-me do sofá da sala, atravessei a casa já na penumbra, e fui até à varanda do quarto, virada para a rua que corre de nascente para poente |ou ao contrário. como mais vos aprouver| de onde tinha uma excelente vista do céu. a coloração azul profundo, vibrante, onde as estrelas se anunciavam, fascinava exercendo sobre mim poderoso efeito calmante. não cheguei a escancarar as portadas da varanda. quedei-me do lado de dentro. hipnotizado não pelo céu |como de costume| mas pelos corpos enlaçados. pelo abraço entrevisto, numa divisão do 2ºandar do prédio defronte. primeiro vi os corpos |sem cabeça| moverem-se um para o outro, como que deslizando. arrastando consigo o tempo, a dor, a tristeza, as alegrias...arrastando consigo tudo de melhor que o ser humano tem e tudo de pior com que convive ou em si existe. senti-me mal. mais do que uma percepção uma sensação de voyeurismo atingiu-me qual potente murro mas o fascínio e a hipnose eram superiores. releguei o mal-estar |em que a situação de inesperado, indesejado observador me colocava| para longe de mim e deixei-me preencher por aquele abraço de duas pessoas sem idade, sem sexo, sem rosto das quais tudo desconhecia inclusive os laços que as uniam. um abraço tão real, tão sentido, tão pleno que nele cabia toda a vida e nele esta se renovava e recriava. um abraço terno mas potente. simultaneamente suave e forte. a ternura escorria pelos corpos e atingia-me envolvendo-me naquele renovador abraço que me não era dirigido. a noite caiu depressa como é norma no período de twilight (entre luz?). entre vidas me encontrava eu. estranho intruso que cabia no espaço daquele abraço e sentia aqueles braços a apertarem-me. a susterem-me. solidários. quentes. com uma força e uma tenacidade toda feita de amor. na casa em frente a luz da divisão iluminava os corpos permitindo-me esta doce, terna e rica partilha. nessa noite senti-me leve e liberto do turbilhão feroz que me trucidava. dormi embalado pelo remanso manso das maternas águas.
passará agora a ser a dez dedos e terá continuidade no blog A cor da vida. neste iremos desenvolver um novo projecto. a partir de uma foto seleccionada por uma de nós a outra escreverá um texto. dar-vos-emos notícias tão cedo quanto possível caros amigos de quem,aparentemente, nos descuidamos.