20.03.10
ilustrado por Ana às 16:59

10.03.10

o chilrear dos pássaros anuncia o nascer do dia. há uma luz límpida que se espreguiça pela casa devagarinho. as cores do amanhecer são pinceladas nas paredes brancas da cal. o amor renasce em cada manhã. o verde da esperança a sorrir-lhe.

ilustrado por Conceição às 19:21
escrito por Ana em 20/03/2010 às 16:57

03.03.10

deitei-me, como me deito há mais de sessenta anos. na minha cama, no quarto que conheço, no aconchego dos lençóis gelados que amornam rápido com o calor do corpo e logo logo toda a cama um borralho e o sono a fechar-me os olhos que fitam o quarto na penumbra permitida pela luz da iluminação da rua. acordei. os olhos ainda fechados.  estiquei todo o corpo distendendo os músculos. aos poucos entreabri os olhos. uma luminosidade intensa e dourada rodeava-me como se o sol nascesse dentro do quarto. abri-os plenamente, surpresa, para um mundo dourado cheio de flores e abelhas numa azáfama louca. sentei-me na cama – pensei eu – e dei por mim suspensa. nem cama nem paredes. nem quarto. nada. todo o mundo que avistava não azul mas dourado e florido cheio por uma música de zunidos feita. pus os pés no chão e até o chão só relva e pequenas flores parecidas com bocas de lobo. terra não se avistava. flores e mais flores. arbustos, árvores, relva e ervas, tudo florido. tudo dourado. sonho pensei. dei por mim a flutuar de flor em flor enquanto emitia um zunido que se juntava harmoniosamente  à orquesta que se fazia ouvir.

sinto-me:
ilustrado por Ana às 19:28
escrito por Conceição em 10/03/2010 às 19:26

10.02.10

Carolina caça a melodia todas as tardes. as notas musicais preenchem a casa de alegria. Carolino canta-lhe uma cantiga sempre ao entardecer, em vez de tocar à campaínha. histórias de encantar inventadas ao sabor da emoção. no sótão há uma caixa mágica onde as notas musicais habitam durante o dia, colorindo a casa de fantasia. são um casal peculiar que namora todos os dias ao sabor de uma canção.

ilustrado por Conceição às 13:01
escrito por Ana em 03/03/2010 às 19:31

07.02.10

sou o gondoleiro dos sonhos. um dia vi no cinema um gondoleiro transportando os turistas de um lado para o outro da laguna entoando belas árias alimentando os sonhos que cada um perseguia na sua viagem. corporizando-os. era uma magia real vivida pelos actores e por mim. não duvido que todos os turistas que por lá passearam a sentiram. atribuí-a à cidade e ao encantamento da laguna. todo aquele espaço me pareceu mágico. não duvido que o era. sentia-se a magia em todo o lado. respirava-se na irrealidade daquele mundo harmónico, ao que dizem decadente mas tal facto parecia mais irreal do que o resto. Sono il gondoliere di sogni. Il mio ed altri. sou visível ou invisível? não o sei dizer. na minha gôndola mágica navego nos fios de água da chuva que escorrem e a elevam numa poalha mágica. com a minha vara florida oriento-a e ela deriva navegando em função dos sonhos buscando-lhes alimento e concretização. Sono il gondoliere dei sogni.

ilustrado por Ana às 06:37
escrito por Conceição em 10/02/2010 às 13:00

04.02.10

a casa acorda devagarinho com o riso das crianças a brincar na praia. o som das ondas a desenrolar na areia. o grito das gaivotas na mansidão do céu. o cheiro a maresia anuncia a manhã. a luz espreguiça-se pelos quartos.

ilustrado por Conceição às 15:54
escrito por Ana em 07/02/2010 às 06:27

03.02.10

as minha pernas já não são como antigamente. os três quilómetros e meio, da herdade até aqui, deixam-me extenuado. cheguei há pouco mais de um minuto. encostada à parede da casa que foi mandada construir pelo meu bisavó Jaime Meireles está a minha velha bicicleta. a parede também está velha. os outrora belos azulejos mostram o desgaste do tempo e do clima. trouxe alguns legumes frescos e fruta da horta cuidadosamente escolhida pelo velho hortelão Jerónimo. ele é três anos e pouco mais novo do que eu. brincámos e crescemos juntos. o pai dele e o pai do pai dele foram os hortelões anteriores. não quero que ele trabalhe mas ri-se - e o que faria então com a vida? sentava-me à espera da morte? Ná...e tu José |desde há uns anos retornou ao tratamento que sempre tivemos até ao dia em que formado me casei e passei a ser o Doutor José Meireles| não andas por aí a pedalar e bem mais velho do que eu? em verdade tenho oitenta e quatro anos e, não tarda, Jerónimo festeja os oitenta e um. os azulejos do frontispício apresentam um ar delido. sentado à mesa da esplanada defronte da casa observo-os enquanto beberrico uma limonada fresca acabada de fazer. rio-me e ninguém se espanta. estão habituados. a mulher morreu. filhos não os tivemos e não seriam garantia de nada. de companhia ou presença, quero eu dizer. sou só eu no velho casarão, a não menos velha Deolinda, antiga governanta que ainda agora cuida de mim e orienta a mulher a dias, antiga trabalhadora rural, que faz os serviços da casa e a mantém em ordem sob as suas ordens rigorosas. concluo que estamos todos velhos e não tarda chegará a hora de partir deixando que o novo venha ocupar o espaço ora ocupado por todos nós. rio numa gargalhada onde a ironia está presente. ergo o copo num brinde murmurado à vida desejando que sejam melhores e melhor o mundo novo que já não verei que este cansa muito de tão mesquinho que está.

sinto-me: constipada?
ilustrado por Ana às 17:53

25.01.10

Madalena escuta o vento. o corpo esquálido balança ao sabor da brisa. o ar uiva por entre os cabelos. nuvens de areia recriam dunas. o mundo perdeu a cor. no abraço de uma tristeza antiga. Madalena testemunha o diálogo entre o vento e a areia. sussurrado aos ouvidos. o horizonte amplo convida à calmaria. cheira a mar. Madalena fecha os olhos e é inundada pelo azul. a luz aquece-lhe o corpo. de olhos fechados a alegria sorri-lhe. algures uma centelha renasce no coração. a esperança prevalece no horizonte da alma. no silêncio da paz interior Madalena escuta o vento cantar-lhe palavras de amor.

ilustrado por Conceição às 15:22
escrito por Ana em 03/02/2010 às 17:50

texto a partir da imagem...
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