22.11.09

o dia amanheceu com Clotilde a saudar a alvorada. um sorriso no olhar revelava o seu estado de espírito. durante o serão, ouvira Amélia e Josefa a combinarem uma tarde de bailarico no fim-de-semana e acordou decidida a ir. Amélia tinha bom coração, teria o seu apoio com toda a certeza. só tinha de arranjar alguém para cuidar da mãe. há muito tempo que não se dava essa liberdade, era natural que os outros a deixassem em segundo plano, desde que a mãe adoecera que se descuidava de si. entretanto, em cada caixa do correio do prédio uma mão misteriosa deixava um convite para a inauguração de uma escola de yoga no rés-do-chão, com a oferta de uma aula grátis. o dia prometia animação. Maria Rita acordou ansiosa com o serão em família, com o Zeca e o cão Bernardo. Zeca levantou-se determinado a esclarecer as suas emoções com Lúcia, antes de tudo eram amigos.

publicado por Ana às 11:09

20.11.09

Mariana ficou um pouco na sala a falar com a filha. conversas de mulheres disse rindo para Antero. Maria Rita estranhou. tão pouco usual era esta boa disposição e disponibilidade da mãe que só costumava falar de assuntos do quotidiano ou as conversas sobre análises que emitia sobre terceiros. mais surpreendida ficou quando a mãe lhe disse: estou tão feliz com o teu pai. e também por ti, claro...perdendo-se em devaneios. Maria Rita sorriu e beijou-a. era a primeira vez que a mãe expressava ou falava de sentimentos, emoções. pelo menos desde que ela se lembrava. mais surpreendida ficou quando a mãe continuou sabes que a D. Josefa, quando foi arranjar o cabelo, ganhou uma massagem grátis e me contou o bem-estar que sentiu e que  irá repetir? de tal modo falou de como se sentiu que me entusiasmou. combinámos ir as duas marcar uma! se o queixo não fizesse parte de um sistema ósseo complexo o de Maria Rita teria despencado e caído ao chão tal o espanto...O que teria sucedido a sua mãe? era outra pessoa. bom, oxalá assim continue pois seremos todos mais felizes. principalmente o pai e ela. o telemóvel tocou e sobressaltou-as na doce mornidão de ternura em que se encontravam. era Zeca a dar-lhe um beijo de boas noites. Mariana aproveitou o sobressalto do toque para se despedir da filha e juntar-se ao marido que a esperava já deitado. Clotilde tratou da mãe, fez um chá de tília para si pois sentia-se enervada e necessitava dormir e decidir o que fazer pois apesar do polimento de todos sentira-se um pouco à margem.com quem convivia mais, dentro de portas, era com Amélia e esta estava ocupada no seu papel de anfitriã cuidando de tudo e de todos e com Eleutério mas naquela noite o homem parecia possesso, de forma que ficou à deriva. a vizinha do 2º E e o marido pareciam estar em lua-de-mel e pouco espaço deixavam a uma terceira pessoa, D. Josefa e Joaquim pareciam ter conversas a pôr em dia tal a conversação pegada. ficou para ali um pouco à deriva. pensou tenho de me acalmar e amanhã, com a cabeça fria penso no que fazer. não quero ficar para aqui desgarrada como leprosa.

sinto-me:
publicado por Conceição às 14:45

Clotilde regressou a casa como se um nevoeiro a abraçasse. cumprimentou a mãe sem ânimo e seguiu para a cozinha para lhe aquecer um copo de leite morno. em muitos aspectos era como cuidar de uma criança. em casa de Amélia todos tinham sido gentis mas ninguém lhe dera realmente muita atenção e Clotilde terminava a noite vestida de tristezas. a mãe estava demasiado dependente para notar os estados de espírito da filha. um pouco desse nevoeiro também entrou na casa de Ricardo. ver Maria Rita tão alegre com outro homem deixara-o sonhador. como seria a sua vida se tivesse tido a coragem de se declarar na adolescência? no entanto, o sonho desvaneceu ao pensar em Rosário. eram felizes à sua maneira. e Maria Rita era uma boa amiga, sempre disponível quando alguma das crianças adoecia. tinha as suas vantagens haver uma enfermeira no prédio. no 3ºE Zeca flutuava pela casa, encantado. nunca pensara encontrar alguém que o deixasse tão preenchido. tinha a certeza que Lúcia o entenderia, há alguns meses que a relação vinha perdendo vigor. em três anos de companheirismo nenhum dos dois sentira necessidade de dar o passo para o namoro. eram apenas um hábito na vida um do outro. o rés-do-chão do prédio está em obras há alguns meses. só Ricardo (que é o senhorio) e Zeca (que é o arquitecto) sabem que vai abrir aí uma escola de Yoga. em breve o prédio terá uma nova dinâmica.

publicado por Ana às 11:26

19.11.09

os pais de Maria Rita estavam mais felizes do que em qualquer outra época das suas vidas. pela primeira vez Antero soube que a mulher o amava e que o descobrira. Mariana exorcizara os fantasmas e a alma ficara leve e límpida permitindo-lhe enxergar o que andara a fazer das suas vidas. em silêncio agradeceu à vida, ou aos deuses, o amor do marido não se ter extinguido. falavam do jantar de como fora um convívio agradável e do caricato que fora a entrada de Clotilde - dizendo compreender a solidão dela. só, com a mãe idosa e doente que a prendia à casa e ao prédio, excepto quando tinha que ir ao mercado ou ao super. eram esses os únicos  ares que respirava fora do apartamento – quando Zeca e Maria Rita entraram. perceberam antes deles dizerem algo e no coração de cada um esta outra alegria floresceu regado pelo brilho nos olhos dos jovens. em casa de Amélia as coisas não estavam bem. Léu-léu sentia-se mal entontecido e com a persistente dor no peito. Amélia insistiu para que dormisse lá e fê-lo deitar-se enquanto arrumava mais algumas coisas na sala de jantar e na cozinha. a única sombra que não a deixava festejar o sucesso do jantar e da boa relação iniciada entre Josefa e Joaquim (os dois J’s como passou a designá-los) era o estado do seu Léu-léu. ainda assim, quando se lembrou de Clotilde, deu uma gargalhada. ai, o que a solidão faz às pessoas...no 5º andar, Ricardo, 3 anos mais velho do que Maria Rita foi ao quarto dos filhos dar-lhes um beijo de boas noites e deitou-se sem conseguir conciliar o sono. Sempre tivera um fraquinho por Maria Rita mas esta sempre o vira só como amigo. na universidade conheceu Rosário com quem casou antes de acabarem os cursos pois ambos vinham de famílias abastadas e tinham património para viver antes de entrarem no mercado de trabalho apesar de ambos darem explicações para se sentirem autónomos. tiveram três filhos que viviam com Ricardo, pois Rosário estava agora a trabalhar em Bruxelas e ambos acharam mais adequado as crianças ficarem com o pai perto dos avós, tios e primos. com a separação, ao herdar aquele prédio decidiu mudar-se para a cobertura por ser espaçosa e ter uns terraços fabulosos para as crianças brincarem em segurança. assim Maria Rita voltou a entrar na sua vida e no seu coração dormente.

sinto-me:
publicado por Conceição às 16:11

chegados a casa, Zeca fez questão de cumprimentar os pais de Maria Rita, que ainda estavam acordados, como dois namorados, sentados de mãos dadas no sofá. a boa nova foi partilhada com todos com alegria. e Mariana decidiu de imediato jantarem os quatro no dia seguinte para se conhecerem melhor e para um jogo de sueca entre casais. Zeca e Maria Rita sairam novamente para deixarem o cão Bernarndo esticar as pernas antes de dormir. desta vez passearam de mãos dadas. no regresso cruzaram-se com Ricardo, o senhorio e amigo de infância que sempre teve uma paixoneta nunca correspondida por Maria Rita. este deitou-se taciturno com a alegria contagiante da amiga.

publicado por Ana às 13:46

e se Zeca o pensou de pronto passou  a agir. sabes, Maria Rita, a Lúcia está muito satisfeita com a tua colega que trata da mãe dela. a D. Carolina era um doce de pessoa, de grande educação e gentileza, mas muito independente de forma que com o AVC e a dependência provocada ficou um pouco irritável. felizmente, para além, de excelente profissional, a tua colega tem uma grande empatia e paciência de santa. conquistou a D. Carolina que se entrega nas mãos dela com confiança e sente grande prazer na sua companhia. para além de enfermeira é uma excelente dama de companhia que a ajuda a passar os dias de forma construtiva e variada. a Lúcia pediu-me para te agradecer a orientação e diz que a Isabel é realmente dotada e já se nota grande evolução. diz que te vai enviar convite para a festa de Natal. que tens de a ir ouvir pois vai fazer um solo. sobre a relação que temos mantido não tínhamos compromisso. isso era claro para ambos, creio. mas talvez pensássemos que seria final.  dávamo-nos bem...três anos é já muito tempo, mas desde que te conheci um sentimento novo e muito mais forte me habita. tenho saído menos com ela e só como amigos. se aceitares este amor que por ti sinto telefono-lhe hoje para que nos encontremos amanhã e ponho termo à relação. disse tudo isto de um fôlego. sem respirar. o coração disparado no peito. Maria Rita, serena, havia parado de comer. olhava-o com grande calma. Zeca estremeceu ao vê-la tão calma quando ele era todo agitação e nervos. Maria Rita falou então, aceito o pedido de namoro que me fazes apesar de triste por Lúcia. gostei dela e creio que vai sofrer. mas no coração não conseguimos mandar. por favor diz-lhe isto mas só se estiveres seguro do tipo de afecto que por mim nutres. eu estou. amo-te Zeca!

sinto-me:
publicado por Conceição às 12:55

Clotilde bem tenta captar a atenção de Joaquim olhando-o insistentemente e rindo alto. este, por sua vez, está encantado com a cândura e a elegância de Josefa. a atenção que reserva para Clotilde é pura cortesia. Eleutério segura a mão de Amélia como sendo a única coisa que o mantém à tona das emoções. esta noite está a reviver toda a sua vida, a encaixar as peças do puzzle e sente-se agoniado pela consciência do erro que mudou o rumo de tudo. em Mariana cresce uma paz da qual renasce uma mulher serena. a certeza de sempre ter amado e de ter sido amada começa a cicatrizar todas as mágoas. Josefa nota que algo se apazigua na vizinha e decide contar-lhe a sua sessão de massagem. noutros tempos Mariana teria desdenhado, hoje está genuinamente interessada. e, divertidas, combinam uma sessão as duas. Josefa sente que deixou de ter uma vizinha e acaba de ganhar uma amiga. Clotilde continua a rir alto na tentativa de ser o centro das atenções mas o seu desespero apenas ressoa com o de Eleutério. entretanto, noutro recanto da cidade, Zeca observa Maria Rita a comer. observa-a consciente de que ao seu lado Lúcia deixa de ter significado e que tem de resolver esta situação o quanto antes.

publicado por Ana às 11:10

surpresa Amélia compreende que aquela entrada nada tem de inocente mas como boa anfitriã limita-se a dizer nem todos minha querida. deixe que lhe apresente um amigo de Eleutério, Joaquim Manuel de Carvalho Simões. Clotilde cora ligeiramente e cumprimenta com um sorridente, muito prazer. por favor desculpe-me a distracção. e acrescenta para Amélia: vinha para uma partidinha de cartas. pela primeira vez em mais de três décadas Mariana compreende como tem andado equivocada. o sentimento que ainda nutria por Eleutério não era amor. descobre, com verdadeira surpresa, que ama o marido. ao longo dos anos tem alimentado a raiva pela dor sofrida na altura do abandono e este sentimento sobrepôs-se a todos os outros. convenceu-se de que o continuava a amar, pois era um sentimento mais bonito e romântico do que assumir que o sentimento sobrevivente era um misto de raiva e revolta que exigiam reparo. com uma ternura como Antero não recorda repara no olhar da mulher e sorri-lhe sereno. sem ela o dizer compreende o esclarecimento interior, o desenrolar do novelo de emoções dentro dela e fica feliz por ambos. até pela filha. compreende as razões nunca expressas de esta se manter numa vida tão limitada. quase só casa e trabalho, sendo que casa, neste caso  significa: pais. sorri confiante. parece que afinal Mariana tem veia casamenteira pois é claro o interesse mútuo e afecto crescente entre Maria Rita e Zeca. Eleutério capta, sem saber bem o que capta, todo este bem-estar que flui entre o casal e a dor no peito aumenta. já há um bom bocado que se calou. Amélia sentara-se perto dele dando-lhe a mão e, na infelicidade em que se sente naufragar agarra-se a ela. percebe o enorme erro que cometeu e a razão porque nunca casou. nunca deixou de amar Mariana. vê-a belíssima. radiosa ao lado de um homem de quem só por pura mesquinhez poderia desdenhar. toda a situação o abala e fá-lo sentir-se nulo. entretanto Clotilde beberrica o café e tenta chamar a atenção de Joaquim.

 

sinto-me:
publicado por Conceição às 06:03

18.11.09

Mariana sente-se soberana, protegida pelo amor de Antero. Josefa e Joaquim estão encantados um com o outro e já decidiram ir a um bailarico durante o fim-de-semana. inquieta, Amélia vê Eleutério longínquo e sofrido. o jantar decorre ameno. tirando as fífias de náufrago do Léu-léu. salvo pela campaínha à hora da sobremesa. espantada Amélia recebe os beijos que Clotilde lhe dá nas bochechas enquanto entra despachada pela sala dentro. ai vizinha, desculpe! não sabia que estava com visitas! exclama num tom exaltado. ora, que distracção a minha! somos todos vizinhos! acrescenta sem cerimónias. e senta-se no sofá à espera de ser servida de um café. os restantes convivas estão tão serenos que riem, aceitando tudo como uma cena caricata. o que deixa Clotilde ainda mais irritada, pois percebe que não conseguiu incomodar ninguém.

publicado por Ana às 12:32

ainda bem que dei uma espreitadela. assim vi como estão arranjadas e vou-me cuidar de acordo a não fazer feio, mas sem dar bandeira. tenho que ser cautelosa no modo de me vestir senão percebem o meu estratagema. com o coração aos pulos e uma raiva a mordê-la numa dor incomensurável dirigiu-se ao quarto a rever as toilettes que já separara e a seleccionar uma que a favorecesse, mas parecesse absolutamente casual. ao lado os casais conviviam e Amélia, numa felicidade sem fim, observava a mesa central e as de apoio orgulhosa da beleza e do aspecto das entradas bem como a conversação fácil entre Josefa e Joaquim o que a deixava ainda mais orgulhosa. Eleutério era a nota dissonante mas parecia que só Joaquim dera conta do nervosismo deste. continuava a falar muito alto, a voz ligeiramente estridente quando a sua era, naturalmente, grave. gargalhava muito, por tudo e por nada. não cessava de observar Antero e Mariana e uma dor aguda no peito perturbava-o. competia com Antero como um animal pela atenção da fêmea. esforçava-se por mostrar mais graça, mais inteligência. Mariana percebeu a situação e cuidou de mimar o seu homem. Amélia na excitação de felicidade, ocupada que estava a fazer os convidados sentirem-se em casa ainda não se apercebera e já esquecera a estranheza sentida no seu Léu-léu durante a tarde mas, com o passar do serão, já sentados à mesa, de volta do prato principal apercebeu-se finalmente que Eleutério estava estranho.  menos atencioso com ela, impunha-se. ele que era sempre polido e discreto, um verdadeiro gentleman. ficou preocupada. sentados longe, cada um num dos extremos da mesa, não podia perguntar-lhe nada sem ser em voz alta. olhou-o e falou com ele sorridente tentando acalmá-lo e, por várias vezes reparou num ricto de dor no rosto e num rápido movimento da mão ao peito. fora Maria Rita e Zeca haviam decidido ir ao cinema. Maria Rita ainda não vira “As Pontes de Madison County. estudava e era muito jovem quando estreou e deixou-o passar, mas agora gostaria de o ver. e apesar de Zeca o haver visto disse que teria prazer em revê-lo. um bom filme de amor, disse.

sinto-me:
publicado por Conceição às 12:22

17.11.09

o grito surdo de Clotilde ecoa-lhe na cabeça. ainda de porta aberta, Amélia apresenta Josefa a Joaquim e estes, descontraídos, sentem a presença estupefacta da vizinha invisível. a porta fecha-se ao som das vozes animadas e sorridentes. Clotilde permanece hirta, com as duas mãos a sufocar a voz e uma raiva pequenina a crescer e a enraizar-se no coração. bem cuidada, Josefa é um mulherão e o arranjinho que Amélia lhe proporcionou também não é nada de se deitar fora. Clotilde está cada vez mais zangada. vai condimentando a inveja com uma revolta com sabor a injustiça. parada com o nariz ainda colado à porta da rua, começa a maldizer a sua sorte. que uns são filhos e outros são enteados. que nunca teve nada de fácil na vida. e é a raiva que a inspira a embonecar-se toda para interromper o serão na casa da vizinha à hora do café. está decidida a fazer-se de convidada distraída.

publicado por Ana às 16:30

16.11.09

ver o ar surpreendido dos presentes e o olhar de apreço de Joaquim quando lhe é apresentada fá-la sentir bem. na conversa de ocasião para quebrarem o gelo rememora os seus anteriores receios. lembra-se de como hesitou ponderando a asneira feita ao pensar entrar sozinha para se destacar. ou não pensou. a ideia infiltrara-se sem ela dar conta. sentia-se embaraçada só de pensar que, ao entrar, dez olhos a iriam escrutinar. a insegurança a alastrar. porque não combinara com Mariana e Antero subirem juntos? burrice a dela. agora o mal estava feito. as pernas tremiam-lhe. apetecia-lhe não ir mas lá saiu levando o seu bolo especial de chocolate, o bolo brigadeiro a que nenhuma boca, mesmo as pouco gulosas resistem. tem um segredo de confecção. um ingrediente secreto testado por ela e não o conta a ninguém. fá-la sentir-se importante ver o apreço e o prazer com que o saboreiam. já no elevador, sentia as pernas a tremer, olhara de soslaio a imagem no espelho e surpreendera-se. não se lembrava que arranjada ficava um mulher interessante, bonita até, pensara. este pensamento deu-lhe ânimo. ajeitara uma melena do cabelo com as mãos, o que a fez recordar o prazer da massagem. centrara-se nisso e nos elogios que a massagista fizera à sua forma física enquanto subia. sentiu-se vaidosa, confessa si própria. ó Sra. D. Josefa, a senhora tem um corpinho que valha-nos Deus. da forma como anda vestida nem nos apercebemos. sim senhora dou-lhe os parabéns e olhe que sou sincera. devia era dizer-lhe que necessita de fazer um e outro tratamento pois é o meu ganha pão, mas não. claro que umas massagens por mês só lhe farão bem, não só à estética como à saúde, mas quanto a isso confio na forma como se vai sentir e depois decidirá por si. Clotilde passara a tarde num nervoso miudinho. mais ainda no final do dia atenta á  campainha de Amélia a correr para espreitar pelo óculo da porta. pela última vez corre e cola o olho para ver bem. o olho  que espreita, esbugalha-se-lhe. custa a reconhecer Josefa. tem de tapar a boca com as duas mãos para se não denunciar com um grito de espanto que irrompe garganta fora.

 

Mariana e Antero são os primeiros a chegar ao 4ºE. Mariana e Amélia estão deslumbrantes, enquanto os três cavalheiros se apresentam de fato e gravata. Amélia diverte-se com tanta cerimónia em sua casa. Eleutério encena uma alegria que não sente, conversando mais alto do que é habitual. Joaquim estranha o amigo pois conhece-lhe bem os humores. desde as 19h20 que Josefa está colada ao óculo da porta à espera de ver sair os vizinhos do lado. está demasiado nervosa para chegar primeiro e ser logo apresentada ao tão badalado Joaquim. está tão habituada à amargura de Mariana que se surpreende com a sua elegância e serenidade e com o carinho com que esta segura o braço do marido. sentindo o estômago aos pulos como uma adolescente, Josefa deixa o casal subir e entrar no 4ºE, olha-se novamente ao espelho feliz com o que vê, respira fundo e abre então a porta cruzando-se com Zeca que vem buscar Maria Rita para jantar. trocados os cumprimentos, Josefa segue para o quarto andar. Amélia recebe-a com um abraço e prepara-se para lhe apresentar Joaquim.

publicado por Ana às 14:05

15.11.09

Mariana marcou hora no cabeleireiro pelas dezassete. têm ainda muito tempo para almoçar nas calmas e dar um passeio aproveitando o dia que se apresenta soalheiro sem estar quente demais. a Quinta apresenta-se luxuriante de verdura na transição, ainda não iniciada, para o Outono que logo pincelará a natureza com novas e quentes tonalidades. Clotilde está melindrada. são vizinhas e amigas. mais até. confidentes. muitas vezes passava o serão em casa de Amélia mesmo depois de ela iniciar a nova relação. pelo óculo da porta espiolhara o movimento em casa desta. compras e mais compra... pois bem, faria como em tantas outras noites. depois de jantar tocaria à porta da vizinha como quem de nada sabe, pois nada sabia oficialmente - ia chamar-lhe amiga mas achou não ser merecedora - desafiando-a para um joguinho a três ou a duas. conforme. resolveu sair e comprar um vestido novo. teria também de comprar uns sapatos adequados. de salto, mas confortáveis. assim pensando organizou tudo. deixou o almoço da mãe, num termo junto dela, bem como uma garrafa de água, um termo com chá de tília e a medicação do almoço. não seria dinheiro mal gasto. daí a dois meses tinha o casamento de um sobrinho e o vestido serviria na perfeição para o momento. tinha uma pochette em tons neutros, mas bonita, que facilmente faria conjunto. em casa de Amélia os preparativos para o jantar decorriam bem num ambiente levemente tenso derivado à sisudez de Eleutério. Amélia ponderou perguntar-lhe o que o afligia, mas achou melhor deixa-lo em paz. fingir que nada percebia.


há um restaurante muito prazeroso no meio da Quinta das Conchas, todo envidraçado, para dar a sensação de se estar no meio da Natureza e é aí que Antero e Mariana se encontram de volta do buffet. estão tão serenos na companhia um do outro que sentem necessidade de quebrar as rotinas e mimarem-se. Mariana está em paz com a vida como só esteve durante a gravidez de Maria Rita. sente-se bonita e abençoada. Antero goza o prazer da companhia feliz da mulher. ela que na maior parte dos dias está tão amarga. nenhum pensa nem no passado, nem no futuro. estão simplesmente a saborear a companhia um do outro no presente. entretanto, não muito longe, Eleutério ajuda Amélia a preparar o jantar para os vizinhos. teve dificuldade em adormecer e está com um ar cansado. um ar que é mais de tristeza do que de cansaço. a mente turbulenta apenas diz que precisa de uns momentos a sós com Mariana. Amélia está preocupada com o seu Léu-léu. há alguma coisa errada com o seu amado, hoje não a faz rir! é quase uma presença ausente que a acompanha. Amélia teme que este humor estrague o serão.

publicado por Ana às 12:17

14.11.09

Lúcia e Maria Rita conversaram um pouco mais e despediram-se com simpatia uma pela outra. apesar da simpatia sentida, da educação e da cordialidade, dentro de cada uma procederam a detalhada observação e avaliação da opositora. sim, porque ambas sabiam ser opositoras, adversárias, no tocante ao afecto do Zeca. seria assunto que só ele podia decidir, mas cada uma pesava os pontos fortes e fracos que encontrava na outra. ambas concluíram o mesmo. naquela conversa não identificaram pontos fracos na oponente. ambas tinham um sorriso aberto e franco que se sentia genuíno, auto-confiança, eram bonitas e elegantes, ambas eram profissionais respeitadas, mostraram solidariedade pronta, sem hesitações. educadas com um polimento que da sua ética fazia prova. Lúcia era professora de música. Maria Rita falou-lhe de uma menina. Isabel, que estivera internada no hospital e tinha um dom excepcional para cantar, mas cujos pais não podiam pagar-lhe aulas de canto. tentaram via serviço social mas tal não era contemplado nas despesas ou ajudas possíveis por esta via. a assistente social empenhara-se e falara inclusive com os Rotários mas estes desenvolviam projectos de apoio anual e não podiam funcionar naquela modalidade. sem fim à vista.

Lúcia sorriu e disse pois está resolvido o problema. dou aulas, gratuitas a crianças e jovens numa IPSS*. dizendo isto escreveu o nome e morada da instituição, bem como o horário das aulas, num dos seus cartões pessoais. p.f. diga a Isabel que me ligue e vamos criar condições para que desenvolva esse dom pelo canto com boas e sólidas bases. despediram-se com um beijo.
 
* IPSS - Instituição Particular de Solidariedade Social

Lúcia sorri e diz: a Maria Rita é uma bênção que nos caiu dos céus. Maria Rita relaxa, ainda surpreendida. por uma fracção de segundos pensou que a mulher à sua frente lhe vinha cobrar alguma coisa, algum ciúme doentio. mas o sorriso de Lúcia é sereno e há, de facto, alívio nas suas palavras. por uma fracção de segundos Maria Rita pensou que teria uma cena de faca e alguidar no seu local de trabalho. Lúcia esclarece o que a traz ao seu encontro. há umas semanas a mãe teve um AVC e agora precisa de cuidados diários que a família tem dificuldade em corresponder. estão a precisar de uma enfermeira a tempo inteiro para cuidar da senhora. Lúcia sabe que Maria Rita tem o seu tempo preenchido no hospital mas, confidencia, é sempre diferente pedir orientação a alguém conhecido e de confiança. e o Zeca tem a em grande estima. Maria Rita conhece de facto algumas amigas que estão desempregadas e poderão ter a disponibilidade necessária. os telefonemas são imediatos e logo ali se resolve a questão. uns quarteirões acima há um casal sexagenário a passear de mãos dadas pela Quinta das Conchas. Mariana e Antero parecem recém-namorados, tal é o carinho que transparece em cada gesto.

publicado por Ana às 11:51

13.11.09

Maria Rita foi chamada pelo telefone da sala de enfermaria. tinha à espera uma pessoa que dissera querer falar com ela. num sobressalto correu, logo que pode, à sala crendo ser Zeca que lhe fazia uma surpresa. veloz que ia olhou com atenção e não o viu, nem a ninguém que conhecesse. perguntou à telefonista: Luísa, quem quer falar comigo?

ocupada com os telefones que não paravam de tocar Luísa levantou o olhar e apontou uma jovem em pé, no meio da sala, dizendo: é aquela senhora. Maria Rita aproximou-se, apresentando-se sou a enfermeira Maria Rita. disseram-me que deseja falar comigo. faça o favor e, com a cabeça, apontou uma pequena divisão com cadeiras. lá chegadas inquiriu é familiar de algum dos meus pacientes? por favor disponha.

- não, não sou familiar de nenhum paciente. sou Lúcia, creio que o Zeca já lhe falou de mim, de nós.
Maria Rita estava sem fôlego. o que quereria aquela mulher com ela?
sinto-me:
publicado por Conceição às 16:17

enquanto Clotilde maldiz o dia, Josefa anda nas nuvens. encontrou um vestido que a faz sentir uma princesa. no regresso a casa passou pela cabeleireira para marcar hora e recebeu direito a uma massagem grátis por ser a milionésima cliente a entrar no estabelecimento. Josefa está tão excitada que só consegue debicar o almoço. às três da tarde vai receber o seu prémio. agora sim, sente-se mesmo uma princesa, enquanto o corpo relaxa com as fragrâncias dos óleos, à luz das velas. dormita um pouco durante a massagem. Madalena a cabeleireira está feliz por a promoção ter calhado a uma das suas clientes mais antigas. vai, com certeza, divulgar a experiência pela vizinhança. entretanto, no hospital Maria Rita recebe uma visita inesperada.

publicado por Ana às 14:12

...as pessoas são ingratas. é mesmo assim. para as aflições cá estou eu. para as  coisas boas convida as outras vizinhas...está Clotilde a preparar o almoço, com estes pensamentos a atazanarem-na, quando a mãe a chama pois necessita tomar a medicação. Clotilde ressente-se uma é casada, a outra é viúva...eu, que nunca casei e não foi à falta de pretendentes, mas de tempo para lhes dedicar pois sempre cuidei da casa e dos meus pais, que estou a ficar velhota e um destes dias a minha mãe morre e fico sozinha bem necessito arranjar uma companhia. até para saborear as alegrias do casamento. e com este pensamento sente-se corar. pede à mãe que espere um pouco. tem de perder aquele rubor. deve parecer uma pele-vermelha.

na rua, batendo pé pela zona das lojas com roupa de qualidade – ainda pensa ir a um shopping mas desiste. não está muito  habituada a esses espaços – Josefa pensa que talvez um tailleur seja melhor opção. venha a ter mais uso no futuro, mas logo hesita. pois não quer ela dar uma volta em sua vida? a D. Amélia não disse que depois poderiam ir dançar? um vestido é o que lhe convém, mas claro que será melhor comprar sapatos a condizer. felizmente tem a reforma dela e a do marido, mais as aplicações que ele fez e que rendem uns extras. sente-se animada e feliz. mais propriamente, excitada como uma adolescente por essa ruptura na sua rotina em que tudo era igual monótono e inalterado há tempo demais...
sinto-me:
publicado por Conceição às 14:04

uma novela escrita a quatro mãos
as autoras
arquivos
2009:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


Novembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9

21

23
24
25
26
27
28

29
30


banda sonora
os vizinhos

R/C E/D - Escola de Yoga

 

1ºE -

1ºD -

 

2ºE - Mariana, Antero e Maria Rita

2ºD - Josefa

 

3ºE - Zeca e o cão Bernardo

3ºD -

 

4ºE - Amélia e Eleutério

4ºD - Clotilde e a mãe

 

5ºE/D- Ricardo (senhorio)

RSS
eXTReMe Tracker